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O Mercado Cripto do Brasil: O que Dizem os Dados da Receita Federal — 1º sem/2026

Publicado · ago 31, 2026Autor · Gustavo CunhaLeitura · 8 minIdioma · EN · PT

Segunda edição da série construída exclusivamente sobre os dados abertos da Receita Federal (ago/2019 a jun/2026, atualização de 26/08/2026) — uma base que poucos países do mundo publicam. 2025 fechou como o maior ano da série, R$510 bilhões em compra e venda declaradas somando todos os canais, e o 1º semestre de 2026 já acrescentou R$283 bilhões em seis meses: ritmo de ~R$566 bi/ano, alta de 21,3% ante o 1º semestre de 2025. O que mudou não é o tamanho, e sim a composição. As stablecoins são hoje 92% do volume, com pico de 95,9% em maio; o Bitcoin, que era 80,8% do mercado em 2019, caiu para 5,1%. Três vetores estruturais correm por baixo: uma base de pessoas físicas estabilizada na casa dos milhões de declarantes por mês, uma parcela crescente do volume saindo das exchanges brasileiras e uma concentração extrema em poucos ativos atrelados ao dólar. Juntos, explicam a urgência do DeCripto, cujo reporte mensal passou a valer em 1º de julho de 2026.

O maior ano da série — e um semestre que superou o próprio ritmo

A curva anual se lê como uma escalada longa: R$28,7 bi em 2019, R$215,4 bi em 2021, R$285 bi em 2023, R$416,1 bi em 2024 e R$510,1 bi em 2025. Só o 1º sem/2026 são R$283,1 bi em 53,4 milhões de operações, e o semestre não foi plano — depois de quatro meses estáveis em torno de R$41 bi, o volume saltou para R$58,1 bi em maio e R$57,5 bi em junho, os dois maiores meses da série. Esses dois meses sozinhos são ~41% de todo o semestre, assinatura de tickets maiores e de stablecoins usadas para transferir valor, não para operar.

A participação das stablecoins conta a história estrutural. Saiu de 3,5% em 2019 para um pico de 91,5% em 2023, recuou para 75,7% em 2024 quando o rali do Bitcoin puxou volume de volta, então se recuperou para 80,2% em 2025 e chegou a 92% no 1º sem/2026 — confirmando que 2024 foi exceção, não inflexão. Por baixo, a base de declarantes cresceu 34× em seis anos, de 134 mil CPFs por mês em 2019 para ~4,6 milhões desde 2023, tendo como ponto de virada o momento em que as exchanges nacionais passaram a reportar sem piso de valor.

Quase nove de cada dez reais em stablecoins são USDT

A concentração dentro do universo das stablecoins é mais aguda do que no mercado como um todo. Em 2025, só a USDT negociou R$326,9 bi — 72% de todo o volume declarado — contra R$48 bi do Bitcoin (10,6%) e R$33 bi da USDC (7,3%); apenas cinco ativos concentram ~95% do total. No 1º sem/2026 a ordem mudou: a USDT recuou de 89,7% para 83,1% das stablecoins enquanto a USDC saltou de 9,1% para 16%, alta de 314,5% na comparação anual equivalente a R$38 bi e o maior movimento isolado do semestre. Entre as emissões atreladas ao real, a BRZ é a única com volume relevante na base.

A imagem espelhada é um recuo generalizado nos ativos voláteis. Comparando o 1º sem/2026 com o 1º sem/2025, o Bitcoin caiu 45,8% (de R$24,4 bi para R$13,2 bi), o Ethereum 53,2%, a Solana 65,6% e o XRP 74,3%. O mercado cresceu 21,3% e todo cripto tradicional encolheu — ou seja, o incremento inteiro veio das stablecoins. O que os dados descrevem é menos um mercado especulativo e mais um dólar digital de fato: reserva e trilho para transferir valor.

Para onde vai o volume — e por que a Receita mudou as regras

Por canal, o 1º sem/2026 se divide em 62,8% nas exchanges brasileiras, 14,0% em corretoras estrangeiras e 23,2% sem exchange alguma — P2P e autocustódia. Esse último canal saiu de R$44 bi para R$66 bi em um ano (+50,4%), e juntas as duas rotas não domésticas somam 37,2% do volume, ante 32,6% no 1º sem/2025. É exatamente esse fluxo que o DeCripto (IN RFB nº 2.291/2025) foi desenhado para capturar, alinhado ao padrão CARF da OCDE, com reporte mensal em vigor desde 1º de julho de 2026. Em paralelo, o Banco Central adiou para 3 de novembro de 2026 o início do reporte cambial das operações com ativos virtuais (Resolução BCB nº 574/2026).

O perfil dos participantes carrega um contraste estrutural: por valor, as pessoas jurídicas — sobretudo exchanges declarando em nome próprio — respondem por cerca de 98% do volume, enquanto por número de declarantes os milhões de pessoas físicas superam de longe as empresas. As próprias empresas cresceram 52,8% no semestre, de 70 mil declarantes em janeiro para 107 mil em junho, e a participação feminina no valor subiu de 13,4% para 15,7% (17,5% no pico de abril). Duas ressalvas acompanham os números: os valores absolutos consolidam declarações de contribuintes e podem conter erros de preenchimento, de modo que tendências e trajetórias são a leitura confiável — e, logo depois da janela desta edição, a demanda por criptoativos medida pelo Banco Central caiu 58,4% na comparação anual em julho de 2026, uma mudança de ritmo que a próxima edição terá de incorporar.

Principais conclusões

  1. Recorde de volume. R$510 bi declarados em 2025, ante R$416 bi em 2024 — maior marca da série. O 1º sem/2026 já soma R$283 bi, ritmo de ~R$566 bi/ano e alta de 21,3% ante o 1º sem/2025.
  2. Stablecoins dominantes. 80,2% do volume em 2025 e 92% no 1º sem/2026, com recorde mensal de 95,9% em maio. O Bitcoin caiu de 80,8% do mercado em 2019 para 5,1% no semestre.
  3. Base massiva de pessoas físicas. 4,6 milhões de CPFs declarando por mês contra 134 mil em 2019 — salto de 34× em seis anos — mantendo ~4,5 mi/mês em 2026, com pico de 5,08 mi em abril.
  4. Fuga das exchanges nacionais. 37,2% do volume do 1º sem/2026 ocorre fora das corretoras brasileiras, ante 32,6% um ano antes; só o canal sem exchange saiu de R$44 bi para R$66 bi (+50,4%) e já é 23,2% do total.
  5. Concentração extrema. Cinco ativos concentram ~95% do volume. A USDT é 83,1% das stablecoins em 2026, ante 89,7%, com a USDC saltando de 9,1% para 16% (+314,5% na comparação anual) — o principal rearranjo dentro do dólar digital.

Detalhes do report

TítuloO Mercado Cripto do Brasil: O que Dizem os Dados da Receita Federal — 1º sem/2026
TipoReport long-form
Publicadoago 31, 2026
AutorGustavo Cunha · Fintrender
FormatoPDF · 4.9 MB · Inglês · Português
TemasStablecoinsBrazilTaxOpen Data
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